Adultização e sexualização infantil
- 9 de out. de 2020
- 4 min de leitura
A colagem desta semana é inspirada no filme francês "Mignonnes", da cineasta Maïmouna Doucouré. Logo após sua estreia, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), anunciou ter pedido a suspensão do filme aqui no Brasil por apontar presença de erotização infantil em seu conteúdo.
O filme tem dividido opiniões entre quem defende sua mensagem e quem discorda da forma como as cenas foram gravadas. Vamos entender melhor cada “lado”?
A Mensagem do Filme
Em sua argumentação, a Netflix declara [1] que “Mignonnes ou Lindinhas” é um filme premiado e uma história poderosa sobre a pressão que as meninas enfrentam nas redes sociais e da sociedade em geral durante sua fase de crescimento - e nós encorajamos qualquer pessoa que se preocupa com essas importantes questões a assistir ao filme.
A diretora francesa Maïmouna Doucouré, afirma que o filme faz justamente o contrário do qual é acusado nas mídias, ou seja, faz uma denúncia e uma crítica contra a exposição infantil, sendo o filme um comentário social contra a sexualização de crianças pequenas.
Conceito de Erotização/Adultização
Conceitualmente, erotização pode ser considerada o ato ou efeito de erotizar-se, enquanto a adultização seria um processo de antecipar o fim da infância. Interligado à sexualidade de crianças e adolescentes, encontra-se também, o conceito de erotização precoce [2]
Segundo a psicóloga infantil Paula Pessoa, estamos vivendo um momento muito crítico em relação à educação infantil, ou seja, a erotização precoce das crianças, da qual a mídia tem sido a grande educadora – ou deturpadora – quando o assunto é sexualidade. “Por mais que a criança tenha visto um ídolo com uma saia super-curta, uma unha vermelha, a mãe tem de estabelecer a regra: ‘você é criança e não pode’. Criança não namora, criança não usa salto , criança não dá beijo na boca… criança não faz estas coisas”, diz Paula Pessoa. [3].
Na Mídia
Flores e outros autores (2009), em análise sobre o discurso da erotização infantil na publicidade, afirmam que a concepção de infância vem mudando constantemente e, por isso, a maneira de compreender e tratar as crianças e os adolescentes “[...] variou muito ao longo dos tempos, até que chegássemos hoje a essa nova forma de representação social infantil, marcada pela influência exercida pelos meios de comunicação de massa e dentro da qual se instala um problema que merece importância: a erotização” (FLORES et al., 2009, p. 2). Na visão de Flores e outros colaboradores (2009, p.10) “A erotização dos corpos infantis [...] compromete a formação identitária das crianças, e coloca em risco até mesmo sua segurança”. Essas mudanças podem ocorrer, dentre outros fatores, pela influência dos meios de comunicação de massa, que passaram a dividir com os pais e a escola, o próprio papel de transmissão de conhecimento, educação comportamental e valores. O acesso à televisão e às suas informações irrestritamente veiculadas aproxima as crianças dos conhecimentos destinados aos adultos [2]
Desfecho!
Toda criança, menina, adolescente, mulher, precisa de cuidados, faz parte do seu ser o “querer sentir-se bem consigo mesma”, e consequentemente ter um “retorno” sobre isso. No filme, fica claro o despertamento de Amy para esse autocuidado com seu cabelo, com suas roupas e roupas íntimas, as quais evidentemente passavam despercebidas por sua mãe, junto com a ausência do pai, e os conflitos religiosos, culturais e familiares, assistimos uma garota que passa a descobrir-se sem orientação, sem acompanhamento.
O longa de Doucouré [4] parte de experiências da própria diretora em uma família polígama e de relatos de meninas coletados ao longo de um ano e meio de pesquisa. Em uma entrevista para o site Shadow & Act, focado em filmes afro, ela disse (em tradução livre):
“Todas as histórias que você vê no filme são baseadas nas histórias que foram contadas para mim e eu percebi que essas meninas estavam aprendendo a construir a si mesmas e sua versão de feminilidade com base no que viam nas redes sociais. Percebi que essas meninas estavam crescendo com uma visão que objetivava as mulheres e que estavam crescendo com essa ideia de uma mulher ser um objeto e o valor e o valor de uma mulher baseando-se no número de curtidas que recebiam.”
A adultização e sexualização precoce precisa ser discutida com o objetivo de identificar os impactos no desenvolvimento infantil e nas relações sociais, os estímulos precoces e a valoração de estereótipos sempre focados na objetificação e padronização do corpo da mulher, muitas vezes atropelando fases de desenvolvimento.
O filme nos oferece uma pincelada, um convite a estas e outras reflexões, as quais desejo que tenha provocado, alertado muito mais que escandalizado e reprimido o assunto, pois não é novidade nenhuma que muitos pais não conversam com seus filhos, sobretudo quando o assunto é sexualidade. Dessa forma quem assumirá este papel?
“É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.” Art. 227 da Constituição Federal Brasileira [5].
O filme é um alerta para o papel da Família, da sociedade e do Estado na garantia de direitos e proteção da criança e do adolescente, quando nos mostra uma família ausente na formação desta criança, no monitoramento do impacto e influencia positivos ou negativos da sociedade (redes sociais, amizades etc.), e por fim, o Estado ali representado pela escola que não inclui em sua grade conversas sobre sexualidade, pelo contrário, age de forma repressora onde como a família deveria exercer um papel esclarecedor sobre qualquer tema.
Talvez seja esse o maior problema: Admitir que em sua maioria existe a AUSÊNCIA da família, do Estado e da Sociedade na proteção da criança e do adolescente.
Danny Rodrigues, estudante de Serviço Social, ativista dos Direitos Humanos, curiosa!
Referências do Texto
[1] Lindinhas: Netflix afirma que filme é crítica à sexualização precoce, saiba mais
[2] Mídia e Erotização/Adultização Infantil: Apontamentos Teóricos, saiba mais
[3] O perigo da Erotização Infantil, saiba mais
[4] Sobre Cuties, pânico moral, marketing e representação, saiba mais
[5] Constituição Federal Brasileira, saiba mais
Referências da Colagem
Igor Morski, é um designer gráfico, ilustrador e cenógrafo polonês e um artista conhecido por explorar os horrores não tão sutis da sociedade moderna, através de suas ilustrações controversas, saiba mais
Obra da artista mexicana, Erika Kuhn, saiba mais





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