Consciência Negra
- 20 de nov. de 2020
- 4 min de leitura

Obra Amnésia de Flávio Cerqueira
"Ter consciência negra, significa" por Nilma Bentes
” Ter consciência negra, significa compreender que somos diferentes, pois temos mais melanina na pele, cabelo pixaim, lábios carnudos e nariz achatado, mas que essas diferenças não significam inferioridade.
Ter consciência negra, significa que ser negro não significa defeito, significa apenas pertencer a uma raça que não é pior e nem melhor que outra, e sim, igual.
Ter consciência negra, significa compreender que somos discriminados duas vezes: uma, porque somos negros, outra, porque somos pobres, e, quando mulheres, ainda mais uma vez, por sermos mulheres negras, sujeitas a todas as humilhações da sociedade.
Ter consciência negra, significa compreender que não se trata de passar da posição de explorados a exploradores e sim lutar, junto com os demais oprimidos, para fundar uma sociedade sem explorados nem exploradores. Uma sociedade onde todos tenhamos, na prática, iguais direitos e iguais deveres.
Ter consciência negra, significa sobretudo, sentir a emoção indescritível, que vem do choque, em nosso peito, da tristeza de tanto sofrer, com o desejo férreo de alcançar a igualdade, para que se faça justiça ao nosso Povo, à nossa Raça.
Ter consciência negra, significa compreender que para ter consciência negra não basta ser negro e até se achar bonito, e sim que, além disso, sinta necessidade de lutar contra as discriminações raciais, sociais e sexuais, onde quer que se manifestem. “|1|
Segregação Territorial
Houve um tempo em que lugar de negro era na senzala. Hoje, trancam a gente na favela. No Canindé, como em qualquer outra, as bocas estão sempre famintas. Carolina Maria de Jesus |2|
Nosso lugar é na Revolução
A luta de Zumbi foi para que os negros vivessem livres da exploração, inclusive para praticar sua religião, sua cultura. O tempo passou e o povo negro continua escravizado. A favela é a nova senzala e poder político opressor é o novo chicote |3|. O que vemos hoje no país é uma recriação, uma reconstrução do racismo estrutural. Nós não somos só vítimas do passado. O que nós temos feito nesses 132 anos é não apenas dar continuidade, mas radicalizar o racismo estrutural |4|.
COTA NÃO É ESMOLA por Bia Ferreira
Higienização social - Branqueamento
Vimos na série "Diversidade Cultural", que nossa diversidade tem bases sólidas na violência, e a pós-abolição demonstra ainda mais crueldade quando "Políticas de incentivo a imigração foram intensas para branquear o Brasil pós-abolição, buscando atingir uma higienização moral e cultural da sociedade brasileira enquanto políticas públicas |5|". Sem nenhuma preocupação com a inclusão dessas populações (de ex-escravos) quanto a educação, saúde, habitação, e todos os problemas estruturais, é inegável que temos uma grande dívida moral com os negros, e por que não dizer, uma dívida material.
Ações Afirmativas - Reparação
Então, deixa eu te contar que Ações Afirmativas não são esmolas, ou migalhas, são DIREITOS! As AÇÕES AFIRMATIVAS são medidas especiais de políticas públicas e/ou ações privadas de cunho temporário ou não. Tais medidas pressupõem uma reparação histórica de desigualdades e desvantagens acumuladas e vivenciadas por um grupo racial ou étnico, de modo que essas medidas aumentam e facilitam o acesso desses grupos, garantindo a igualdade de oportunidade. Entender de forma ampla e consciente as Ações Afirmativas é também questionar o passado, efetivar o presente e planejar o futuro de forma consciente |6|.
DIGA NÃO!
Dados de 2019 do Ipea e do Fórum segurança confirmam: 75,5% das vítimas de homicídio no Brasil são negras |7|, e temos tantos outros dados |8|...
Diga não aos cortes de Políticas sociais, pois se cortam direitos, quem é Preto&Pobre sente primeiro. Diga não aos discursos negacionistas que minimizam a escravidão e seus visíveis reflexos até hoje em nossa sociedade. Diga não, ao pensamento e postura meritocrático que talvez você mesmo já foi tentado a ter.
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Danny Rodrigues, estudante de Serviço Social, ativista dos Direitos Humanos, curiosa.
Referências do Texto
|1| Nilma Bentes* comenta o texto sobre Caetano, saiba mais
|2| Trecho do livro “Quarto de despejo” da escritora negra Carolina Maria de Jesus.
|3| Consciência Negra e Apropriação Cultural: o que uma coisa tem a ver com a outra?, saiba mais
|4| Brasil viveu um processo de amnésia nacional sobre a escravidão, diz historiadora, saiba mais
|5| Branqueamento no Brasil, saiba mais
|6| Ações Afirmativas, saiba mais
|7| Assistentes Sociais no Combate ao racismo, p.29, saiba mais
|8|Violência e desigualdade racial no Brasil. Infográfico, saiba mais
Referência da Imagem
Obra “Amnésia” de Flávio Cerqueira, traz à exposição o tema do embranquecimento da população negra, um lado perverso da “mestiçagem”: “O personagem simboliza a última pessoa a sofrer esse processo, a lata de tinta que o garoto despeja em seu próprio corpo não tem material suficiente para cobri-lo por inteiro”.
Flávio Cerqueira nasceu em SP, em 1983. Fez esta escultura em látex e bronze : Amnésia (2015). A obra está no acervo do Masp. Historiadores analisam muitas tentativas de “branquear” a memória negra. A estátua reúne talento e reflexão, saiba mais
*Raimunda Nilma de Melo Bentes, mais conhecida como Nilma Bentes, é uma engenheira agrônoma, escritora e ativista brasileira pelos direitos da mulheres e dos negros, pioneira na criação de entidades e movimentos pelos direitos das minorias em seu estado e no país, iniciados já no final da década de 1970.




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